terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Noite gelada


Tudo estava frio naquela noite. Eu estava sentada na minha cama, com os meus fones de ouvido, naquele meu mundo. Sim, aquele era o meu mundo. Eu escutava músicas e me desligava da realidade por alguns minutos. Costumava passar grande parte do dia daquela forma. Nos minutos restantes, eu comia ou dormia. Não havia amigos, família ou namorado. Minha família e meus amigos sempre tentaram fingir que se importavam comigo. Talvez alguns deles se importassem, talvez não... "Importar-se" era algo que não fazia mais parte das minhas prioridades.
Caminhei até a janela. Tudo escuro. Sempre gostei da localização da minha casa. No meio do nada, com árvores em volta e corujas e morcegos rondando-a durante a noite. Eu podia até ouvir, de dentro do meu quarto, o barulho das folhas batendo umas nas outras. Olhei para o céu na tentativa de encontrar algumas estrelas brilhando. O céu não era tão visível, devido à presença das árvores, mas ainda sim sobrava um "pedacinho" dele. Também não havia estrelas. O céu estava preto.
Então eu olhei o meu quarto. Tão simples. Uma cama, uma mesa, um diário (no qual eu estava escrevendo, mas não terminei), uma cômoda, um espelho grande e só. Apesar de simples, é nele onde eu passo a maior parte dos meus dias. Eu não saio de casa, só às vezes, quando algumas amigas insistem. Porém, nesse dia simplesmente não houve nada. Noite fria, céu escuro, sem amigos. Até a minha família havia saído de casa. Se bem que a presença deles nunca fez tanta diferença. Eles mal notam a minha existência. Dizem sempre que "eu fico no meu mundinho". E quer saber? Prefiro mesmo. Prefiro o frio, prefiro o escuro, prefiro a solidão. Desde que ele se foi, já não há calor, luz e a presença de coisas boas na minha vida. Quem é ele?
Ele foi aquele que me ensinou a sentir tudo. Antes de ser esta garota problemática, fria e calada, eu era uma garota cheia de vida. Esbanjava sorrisos por todos os cantos. As outras meninas? Umas tinham até inveja de mim, por eu ser tão feliz, por ter amigos, por as pessoas gostarem de mim... Mas nunca me importei com elas. Eu tinha as minhas amigas verdadeiras, nas quais eu confiava até a morte. Não deixei de confiar nelas, mas eu mudei tanto, que já não sinto aquela mesma empolgação e vontade de contar segredos que eu sentia  antes. Meninos... nunca tinha me importado com eles também. Apesar de que sempre sonhava com o tal "príncipe encantado". Ah, mas os poucos com os quais eu queria ter algo sempre me magoavam. 
Até que um um dia ele apareceu. E eu entendi aquilo de "virar o mundo de cabeça pra baixo". No começo, não. Mas com o tempo eu fui gostando cada vez mais dele. Ele entendia tudo sobre mim. Ou parecia entender. E eu amava falar as coisas pra ele. Nunca fui de estar falando as minhas coisas a alguém do sexo masculino (nem mesmo meu pai), mas com ele era diferente. Aliás, qualquer coisa que se tratasse dele era diferente pra mim. Não quero contar muitos detalhes sobre como nos conhecemos e como era a sua aparência, porque ainda machuca muito lembrar. Só de estar falando, machuca
Já faz tanto tempo... e ainda dói da mesma forma, ou pior. Ou talvez não doa tanto assim e eu esteja falando da boca pra fora, o que não é muito provável. O que eu senti por e com ele jamais será esquecido. O seu abraço, a sua voz, o jeito que ele me olhava, o sorriso, as palavras... nada irá embora. Tudo foi real... pra mim. Foi isso que sempre me perguntei: como pode ter sido a coisa mais intensa do mundo, se só eu senti? Eu amei por nós dois. Eu lutei por nós dois. Eu tentei por nós dois. Eu penso que só eu existi. Quando eu comecei a falar dele aqui, eu disse "se foi". Quando eu digo isso, quero dizer que ele morreu. Não de verdade, ainda bem. Mas, para mim, ele morreu. Nunca o conheci de verdade. Aquele que ele aparentava ser foi o garoto que eu amei muito. O que ele é de verdade, eu não sei.
Foi isso que eu nunca consegui entender: se eu já sei que ele se foi, então por que não paro de pensar nele? Por que não o esqueço de vez? Quando eu obterei respostas?
De repente, saí do meu momento "flash-back" e sentei-me de novo na cama. Antes disso, peguei meu diário que estava em cima da mesa e continuei a escrever os meus rabiscos. Era isso que eu fazia desde o momento em que comecei a mudar. Escrevia textos sobre a vida de outras garotas. Às vezes eu as fazia loiras, ruivas, morenas. Elas moravam em casas, prédios. NY, Paris... Todas eram diferentes de mim, tinham vidas felizes. Vidas que eu queria ter, mas nunca tive... Quem sabe um dia eu acorde e perceba que sou uma dessas garotas sortudas que estão presentes no meu diário. 
Depois que escrevi no diário, ouvi passos e vozes. Fingi estar dormindo para que não tivesse de ouvir minha mãe perguntar como eu estava. Passadas algumas horas, eu adormeci de verdade e sonhei com coisas boas. No outro dia, quando acordasse, seria a mesma rotina. Até que, um dia, minha vida resolvesse ganhar sentido novamente.

Thaianny Melo

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